Carpe diem, pessimismo e justificativas
Caminhando da volta do almoço estava atrás de uma mulher que, de cabelo bem preso, exibia sua tatuagem na nuca: Carpe diem. Duvido que ela esteja aproveitando muita coisa, nesse dia frio de Curitiba. Já outra mulher, que não vi se tem Carpe diem tatuado no corpão magrelo e surrado de mendiga, rindo muito alto e gritando “Amor”, “Amor”, “Vem cá seu fiadaputa” enquanto atravessava a canaleta do ônibus da Sete de Setembro, estava sim aproveitado, curtindo o momento.
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Ontem assisti o filme americano “Amor a toda prova”, com Steve Carell. No filme, Steve interpreta Cal Weaver, um marido há muito casado e mergulhado na rotina. De repente a mulher pede divórcio e diz que o traiu, o cara sai de casa, vai para o bar afogar as mágoas e conhece um garotão boa pinta que o ajuda a mudar seu estilo de ser para retomar a sua virilidade e papel de homem. Cal então passa a conquistar e levar para cama várias mulheres, mas ainda se sente atraído pela esposa. Como um péssimo filme americano de sempre, ele volta para a mulher e todo mundo continua a engolir a ladainha do “amor pode tudo perdoa tudo blá blá blá”.
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De onde vem esse desespero pela felicidade em nossa sociedade? E tal felicidade não se resume em ter tudo, mas também em ser tudo o que o mundo pode oferecer.
Alain de Botton, filósofo e escritor, comenta em um artigo na BBC (em português) que o pessimismo oferece vantagens. Dentre seus argumentos ele expõe a visão secular otimista e esperançosa que cultivamos colocando nossas fichas na ciência, na tecnologia e no comércio como forças que irão nos salvar de todos os problemas, o que é insensato supor. Daí o pessimismo como um norte escurecido pode ser vantajoso porque o pessimista não espera que o futuro lhe traga melhores dias.
Próximo do assunto está Michel Lacroix, que em seu livro “O Culto da Emoção”, expõe a necessidade que as pessoas tem atualmente de aproveitar o momento, esgotar em todos os níveis a emoção que todo momento pode oferecer, resumindo: Carpe diem.
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Dessa necessidade absurda de ser feliz todo o tempo as pessoas tiram a conclusão óbvia que quando algo vai mal, é preciso fazer qualquer coisa que leve ao êxtase da felicidade. E o pior é que isso vira a justificativa para atos que as mesmas não se sujeitariam se estivessem “felizes”, como a traição que a esposa de Cal Weaver pratica na história do filme.
Nossa busca por ser uma divindade falha, como sempre irá acontecer, afinal somos animais, mas aí recorre-se ao perdão (outro ato divino). É o homem no papel de deus, pura e simplesmente, falhando de maneira miserável.



