
Alberto era um cara tranquilo com a vida. Muito bem casado com Carla a 4 anos e meio e na décima sexta parcela do Celta 1.4 0km. Campeão de truco da pitoresca cidadezinha de Jondinópolis, interior do estado de São José, era exemplo de humildade para toda a vizinhança.
Armando se fosse questionado quanto a Alberto em qualquer outra situação que não aquela que logo descobriremos facilmente diria que nunca viu magrelo mais gordo. Armando era mais famoso que o campeão de truco. Mas sua fama colocava medo em todos os homens de Jondinópolis.
Alberto nem desconfiava que seria traído, muito menos que Armando estaria envolvido.
Jonas era o companheiro de truco de Alberto. Vizinhos de cerca - cerca estilo americana, pintura branca, tábuas lisas com pouco mais de um metro de altura. Em certa altura da cerca existia um portão, também de madeira, que passava todo o final de semana aberto, afinal as famílias no final de semana se reuniam para um grande almoço.
Numa semana qualquer a orelha de Alberto começou a coçar. E seu instinto sabia que algo estava deturpado. Verificou tudo com a casa, com o carro, com o orçamento e concluiu que tudo estava normal, pelo menos aparentemente.
Mas a desconfiança não passou durante as duas semanas seguintes. Somente na terceira semana apareceu uma pista: uma carta anônima deixada sobre o párabrisas quando ele fora ao supermercado.
A carta delatava: “Você está sendo traído por uma pessoa muito próxima”. E ao lado havia uma foto-montagem com páginas de revista onde podia se ver um homem com dois chifres pontudos em perfeita simetria na parte superior da testa.
O homem calmo se transformou em um homem-bomba-relógio posto a matar.
Chegou lá pelas seis da tarde em casa. Na geladeira leu um post-it de sua esposa: “Fui na casa de uma amiga, volto antes das nove”. O sangue ferveu, ligou para a casa de Jonas, mas Jonas não estava em casa.
Em trinta segundos tomou a decisão de visitar o único motel da cidade. O Lovamor ficava a 10340 metros de sua residência na rodovia 43. Antes de sair lembrou do velho 22 presente de seu avô. Pegou-o no forro, colocou na cinta e andou até o carro e dirigiu até o motel.
O porteiro do motel era seu conhecido. Apontou o 22 para ele e disse calmamente: “qual é o quarto”. O porteiro tremeu nas bases e entregou: “15″. Alberto estacionou no pátio, reconheceu um dos carros da garagem e subiu.
Usou boa parte da raiva que estava em suas entranhas e derrubou a porta. Nenhum feito extraordinário, aquela porta era uma porcaria.
Viu a cama. Viu Jonas. Deu um tiro para o alto que fez cair poeira em sua cabeça e cuspiu:
“Você poderia ter feito tudo comigo. Tudo. Menos isso. Com ele? O que ele tem que eu não tenho? Todos esses anos juntos não valeram merda alguma para você? Isso é patético, é, é…”
Deu três tiros. Um em Jonas, seu companheiro de truco. Outro em Armando. E o último na sua cabeça.
A polícia chegou alguns minutos depois avisada pelo porteiro. O Delegado ficou quatro minutos olhando a cena para começar a pegar fios soltos para sua primeira hipótese. No sexto minuto tirou o celular, discou e o passou para um subordinado: “Avise a esposa”.
[BL]Cerca ,Revólver 22, Porta[/BL]