Sem Sentido Sabido
Altair conheceu a internet

Altair nasceu em 1991, numa década conturbada por explosão demográfica, econômica e criativa. Altair cresceu e na década seguinte passou a compreender o mundo e trabalhar. Altair comprou um computador. Altair conectou internet ao seu computador. Altair descobriu que a internet, apesar de usar a infra-estrutura de gigantes telecoms é o meio mais democrático de comunicação. Altair achou lindo a possibilidade de ler blogs, e até mesmo de escrever seu próprio blog. Altair escreveu muito em um blog e até encontrou-se pessoalmente com outros blogueiros. Altair conheceu pessoas do governo que entraram em contato a respeito de um post em seu blog. Altair hoje está preso em algum lugar que fede, tem pouca luz, onde ele faz suas necessidades nas calças e apanha não-voluntariamente algumas vezes por semana. Altair venceu.
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foto por dizfunkshinal no twitter.
As nuvens Dele

Vou contar um fato estranho que aconteceu na minha vida na data de 27 de maio do ano passado. Eram por volta de onze horas da manhã quando recebi um telefonema em meu aparelho móvel, era o Carlos convidando-me para almoçar, minha esposa estava viajando na ocasião, e então aceitei o convite.
Carlos se tornou meu sócio há oito anos quando me convidou para abrir uma empresa de venda de nuvens personalizadas. sabia sobre o assunto e tinha uma grana, estava em igualdade com Carlos e então apostamos na idéia e abrimos a empresa. Um bom trabalho de relacionamento fez a empresa decolar em pouco mais de dois anos de operação.
Vendíamos nuvens para todo tipo de evento. Nevoeiros para parques de diversão, stratus coloridos para raves, cirrus para feriados nacionais, etc. A empresa era um sucesso e resolvemos abrir um modelo de franquias que rapidamente teve unidades instaladas nos cinco continentes.
Cheguei no restaurante, encontrei Carlos e cumprimentei de longe, sua face estava azeda o que me fez por um segundo imaginar o trabalho das glândulas salivares do Carlos reagindo a algum aperitivo de gosto forte, mas não era isso. Após uma conversa quebra-gelo sobre a rodada do campeonato brasileiro de Rolimã do dia anterior, meu sócio tomou um bom gole da cerveja, inspirou profudamente e revelou: tenho algo que quero que ouça. Tirou um gravador do bolso e pressionou uma tecla para ativar a saída do som, debrucei-me sobre a mesa para prestar atenção:
“sacolé mermão, aqui é Deus e eu tenho um bisu pra passar pra ti. Tu para de brincar com minhas nuvens cara, pode mexer na terra, plantar, colher, clonar animais, criar novas doenças, manipular a porra do DNA mas não mexe com as minhas nuvens. “
Eu ri. Mas vendo que Carlos não arredou a posição séria logo parei e perguntei que porra era aquela. E lá veio a explicação do meu sócio. Segundo ele, a ligação tinha sido recebida alguns dias antes. Havia desconsiderado o assunto por três tentativas até que o outro lado da linha falou que poderia provar que era Deus. Iria fazer sortear os números 2,4,8,19,30,58 no concurso da Mega Sena.
E funcionou? Perguntei para ele. “Veja, saiu 2,4,8,18,30,58, uma Quina, o que já é foda de acertar”. Aí comecei a ficar cabreiro com o fato que estava sucedendo. “Tem mais, Deus falou que realizaria um pedido nosso em troca de pararmos com o negócio de mexer nas nuvens dele, fiquei de dar um toque quando tivesse decidido algo”.
Conversamos por longas duas horas naquele restaurante até chegar a conclusão que era melhor não desafiar alguém que acertava na quina da Mega Sena jogando apenas seis números secos. Carlos ligou pra Deus e pediu milhões de dólares em nossas contas bancárias, Deus providenciou. Fechamos a empresa de nuvens, e abrimos uma Igreja.
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foto: D’arcy Norman on flickr.
O estagiário e a GED

O professor está pedindo, então vou escrever um relatório contando minha história no estágio. É uma história complicada, mas que no fim deu tudo certo.
Sou aluno de Administração de Empresas pela FAGENPE (Faculdades Genéricas de Pelotas), estou a ponto de concluir meu curso. Na metade do segundo ano a união da necessidade de dinheiro com a possibilidade de adquirir experiência me conduziu a ser um cadidato na vaga de emprego numa grande empresa do ramo dos calçados. O emprego era uma merda mas o dinheiro que eu conseguia ajudava a pagar os remédios da minha avó que sofria naquela ocasião com dores dilacerantes nas tripas causadas por alguns tumores malígnos.
Na entrevista fui obrigado a escrever uma redação e a responder várias perguntas para uma psicóloga vesga, ressalto o problema com os olhos da psicóloga para que todos tenham ideia do esforço dispendido por mim para olhá-la nos olhos, como recomendou o Max no Fantástico na semana anterior. Éramos oito candidatos dos quais apenas eu e a menina gostosinha passamos. A gostosinha foi conduzida para ocupar um cargo como secretária de um dos executivos, fato estranho já que na oferta de emprego não constava tal vaga. Eu, fui para a vaga de Auxiliar de Escritório.
Fui bem recebido por todos os funcionários do escritório. Eram dezoito pessoas trabalhando com as vendas, com as compras, marketing e outros departamentos menos importantes. Fiquei chateado por nunca terem perguntado meu nome, chamaram-me na primeira vez de Binho, e como Binho fiquei. Comecei carregando papéis, buscando clips borracha cd virgem elástico caneta post-it envelope grampos e ajudando no picoteamento de papel. Não era bem o que eu buscava, mas pensava na gorda bolsa de ajuda de R$570+VT por 6h de trabalho, e então me confortava.
Depois de uns meses foram me cedendo tarefas mais importantes e chegou um momento que praticamente me consolidei em uma posição. Era responsável por organizar os milhares de documentos dos arquivos da empresa. Muita responsabilidade, gostava da sensação de ser confiado. Quem lembra de arquivo geralmente arremete a algo estacionado, entretanto comigo era a correria todo o dia. Não passava meia hora sem que alguém discasse para meu ramal: “Binho tu me vê o contrato com os china, mãs venha rápido guri, tô no telefone com os caras”. E lá eu ia correndo. Era trabalhoso, mas eu estava feliz com aquilo por enquanto. Nem formado estava e já ganhando R$650 (aumento!) com benefícios, quem é que tem uma oportunidade dessas?
Tudo estava na rotina até que um dia meu mundo sofreu o choque de um asteróide. O seu Genival do Vendas me chamou na sua sala e proferiu sem muitas delongas: “implantamos um sistema aí, não precisamos mais de ti pra arrumar os documentos. Vamos descartar tudo, sistema aí chama géde, agora nego vai digitar no computador e ter o documento na hora, não precisa mais te ligar”. Senti a necessidade de puxar mais oxigênio, senti os batimentos do meu coração e eles aumentavam no galope, pensei na minha vózinha morimbunda, não teria dinheiro pra comprar os remédios dela, minha vista escureceu.
Acordei com o Paulo asfixiando-me com um pano a cheirar vinagre, afastei o braço dele e me coloquei sentado com os braços apoiados no joelho e cabeça baixa. “Me deixa eu recuperar o fôlego aqui Paulo, depois pego as minhas coisas e vou embora”. “Bah! Embora pra quê, guri? Não aguenta um desmaiozinho?”. “Eu fui demitido…”. “Ah, eu entendo. Tu não tá na rua não. Vão é te mudar de função Binho véio”. Olhei pra ele, e abracei-o emocionado. “Me larga seu tricolor fedido!”. Sou colorado, mas nem fiquei incomodado, meu emprego estava assegurado.
Depois daquela confusão tudo melhorou para mim aqui na empresa, perguntaram e ficaram sabendo que meu nome é Valdinei que torço pro colorado, e até me convidaram pra jogar truco nos churrascos da empresa. Mas o melhor foi ter minha função alterada: passei a ser o responsável por mapear os metadados, escanear, e inserir as NF’s no sistema. Estou pra ser efetivado assim que concluir meu curso, o que vai quase dobrar meu salário.
Pena que a vovó acabou morrendo. Se bem que agora posso gastar a grana do remédio da véia com putaria.
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foto: eric.acevedo.
Orlando é Brother

Meu pai é Promotor de Justiça e banca a minha vida de playboy surfista. Tenho um veículo Polo, uma prancha massa pra caralho e alguns amigos (todos filhos de gente rica). Curtimos curtir a vida viajando pelo Brasil e pelo mundo atrás da onda perfeita e de mulheres gatas. Hoje conheci o Orlando, o cara mais foda que o Brasil já viu se desenvolver por estas terras.
Orlando nasceu no interior do Espírito Santo em um lugar esquecido por Deus mas que o nome Orlando ainda lembrou de me contar. Era uma cidadezinha com menos de cinco mil habitantes chamada Portanópolis. Orlando saiu de lá na idade de 12 anos, levado pelo Pai que matou um vereador por causa de uma discussão na mesa de jogo. O pai de Orlando o levou para o sul, primeiramente moraram em Joinville-SC, depois numa pequena cidade do interior paranaense chamada Reserva, um ano depois estavam residindo em Pelotas-RS, e então acabaram por conhecer e ficar em Curitiba. Neste momento Orlando já tinha 15 anos e viu o pai ser morto por PM’s quando fugia de um assalto realizado a uma agência bancária.
A vida fora dura com Orlando, sem lugar para ir caiu no mundo das dorgas, salvou-se pela primeira vez quando conheceu a Igreja do Pastor Silas, porém pouco tempo depois conheceu uma garota de nome Leandra que o levou para o mundo dos rachas de carros. Leandra deixava Orlando pilotar o Kadet 1.8, e Orlando detonava. Até que um acidente tirou a vida de Leandra. Orlando roubou uma CG de um cara na rua e fugiu em direção ao nordeste.
No nordeste Orlando apresentou-se como Lando. Conheceu a filha de um deputado federal em uma festa na qual foi convidado por um amigo. As dorgas rolando solta na festa e a garota se entregou para Lando. E se apaixonou por Lando.
O tempo passou e Lando ficou noivo da filha do deputado. Conheceu a alta sociedade nordestinense e prestava serviços sujos para pessoas ricas e importantes. Depois de mais alguns anos casou-se. E anos adiante tinha tanta informação que era respeitado em todas as esferas da sociedade nordestinense.
Mas Lando não estava feliz, então um dia largou tudo e foi viver a vida como uma aventura, de praia em praia. E aqui na praia de Ponta Grossa é que conheci Orlando. Como ele foi tão gente fina me contando a história da sua vida emprestei meu Polo para ele ir até o posto de gasolina comprar mais lenha para minha fogueira aqui na praia.
Foda é que ele tá demorando pra cacete, será que ele tá contando sua história pro cara do posto?
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Proponho aos leitores escrever a MORAL DA HISTÓRIA nos comentários.
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foto: dolarz.
Meu Reinado por uma Festa

A Família Real
Em 2002 o Centro Acadêmico de Ciências Sociais sofreu um golpe de estado e passou a chamar-se Centro Acadêmico Hugo Chaves. Lembro dos alunos estourando o cadeado Papaiz e invadindo a sala que contava na época com um PS One com 4 jogos e dois controles, uma tv Toshiba de 20 polegadas, um computador da marca Positivo com processador Sempron, uma mesa de ferro daquelas usadas em barecos próximos da reitoria, um sofá com o encosto do assento do meio quebrado e um mural confeccionado em isopor e emoldurado com alumínio. O Presidente, o Primeiro Secretário, o Secretário de Esportes, a Secretária de Eventos, o Secretário de Comunicação, o Secretário de Assuntos Políticos e os apoiadores nada puderam fazer contra as vinte pessoas que insurgiram e derrubaram o governo atual do Centro Acadêmico que tinha sido re-eleito por uma pequena margem de votos (120 contra 110 da oposição).
A revolução estava a toda, armados com placas com dizeres de liberdade e rostos de personalidades políticas paradoxalmente relacionadas (como Guevara e Dalai), os alunos ouviram discursos sobre a nova relação que o Centro Acadêmico teria com o Reitor entre outras promessas. E triunfante, o líder que tinha seu cabelo comprido e encaracolado vibrando ao gosto do vento gelado que entrava pelas janelas, informou sobre a mudança do nome do CA. Agora chamar-se-ia Centro Acadêmico Hugo Chaves.
Pois bem, nessa época eu era aluno do terceiro ano e estava alheio a todas as movimentações político-acadêmicas. Porém, aquele golpe me fez repensar meu papel. Diante dos acontecimentos decidi me arriscar com uns colegas e questionar o golpe realizado por aqueles malucos do segundo ano. Foi o que fiz no dia da Reunião da Pró-reitoria responsável. Dizia que aquele golpe jamais era válido pois feria os princípios do ensino, pesquisa e extensão da nossa Universidade, os servidores administrativos concordaram e me inscreveram como possível líder do novo governo do CA Hugo Chaves.
Uma vez empossado resolvi clamar por um recurso esquecido nas Leis relacionadas: “instituição de forma substantiva de um novo sistema de governo”. A minha proposta foi aprovada (e jamais ninguém sabera o real motivo. Esta verdade é que eu comi a professora mais conhecida do departamento e tinha algumas fotos dela nua. Um pouco de pressão foi suficiente para que ela encontrasse jeito de convencer o resto do quorum político necessário para a aprovação). Agora o Centro Acadêmico Hugo Chaves era conduzido por um sistema governamental monárquico no qual eu e minha namorada éramos a Família Real. Um adendo importante é contar que o nome do CA permaneceu sendo aquele em homenagem ao líder populista da Venezuela.
Organizamos diversas festas com cerveja barata para conseguir o apoio ainda mais incondicional dos súditos. Após alguns meses já não havia um estudante sequer a questionar nossas atitudes. Éramos realmente uma família Real. Entretanto, o cidadão que um dia fora o Presidente do CA estava insatisfeito e eu percebi isso quando ele se recusou a ir à festa que organizamos na Chácara do Buraco. Conversei com ele e concedi o título extraordinário de Primeiro Príncipe do Centro Acadêmico Hugo Chaves. Na terça-feira ele acabou aparecendo no intervalo das aulas para cumprir a função que lhe fosse demandada. Pois bem, vós que sois meu herdeiro direto contatai a distribuidora de bebidas Rei das Bebidas em meu nome e negociai cerveja barata para a festa vindoura.
Seis meses e meu Reinado era absoluto. Eu mantinha os súditos felizes provendo-lhes álcool para suportarem a carga de estudos, eles permaneciam inrevoltosos contra minha pessoa Real. E então veio o fato que derrubou o Reino do Centro Acadêmico Hugo Chaves.
Estava rolando uma grande festa, a maior que já havíamos produzido. Esta contava com a participação dos cursos de Filosofia, Economia, Direito, Odontologia e Engenharia Florestal. Minha diplomacia era conhecida por todos, e num golpe de unificação dos povos concebi este evento reunindo filósofos, comunistas, capitalistas, dentistas e carpinteiros. Foi um final de semana de festa acampado na Fazenda Vinho Tinto, foi a maior festa que aquela Universidade já viu.
Na sexta a noite o pessoal chegou e nós tínhamos uma equipe vestida com camisas portadoras do rótulo Staff. O Staff ajudou a assentar os comunistas, fazer check-in dos capitalistas, marcar consultas com as dentistas, e foi ajudado pelos carpinteiros a construir uma fogueira. Os filósofos organizaram-se e ficaram ao relento. Providenciamos alguns cobertores para eles e a possibilidade de emprestar barracas e colchonetes. Quando o relógio marcou meia-noite, a banda Aqui Com Tudo subiu ao palco, o pessoal se juntou próximo do palco e da fogueira. E antes deles começarem a cantar “Menina To Contigo Nessa Noite Fria” discursei para meus súditos e o pessoal além-Reino. Palavras de Ordem, conclamei o evento como um Festival, instaurei a Liberdade, concedi créditos para a Razão e enquanto todos deliravam com palmas, assovios e risadas bem sonorizadas saí do palco. Meu fade-out deu início ao fade-in e então já se ouvia: “quando estou contigo / menina nesta noite fria / quero amar sua boca / suas coxas e sua amiga”.
Rei. Chamou a minha namorada. E não lembro de muita coisa depois disso. Acordei por volta das 17h e já havia movimentação das pessoas no palco e em pequenos grupos reunidos como feudos espalhados pela área da festa na fazenda. Como um pai orgulhoso do filho, tirei fotos para colocar no Blog Real do CA Hugo Chaves. Então a noite de sábado foi parecida com a do dia anterior. Tivemos outra banda de sucesso entre os súditos, e diversão até o grande churrasco de domingo.
O Primeiro Príncipe e sua equipe estavam servindo a carne do churrasco de domingo quando o som foi desligado e ouvi sirenes. Lembro muito bem da cena, um cidadão caminhando a passos rápidos em minha direção com um papel na mão. Quando chegou indagou se eu era o senhor Leandro Roberto Silveira da Penha, vulgo Rei Leandrinho. Afirmei e meus braços foram jogados para uma região nas costas na qual nunca havia encostado os dedos e lá permaneceram juntos. O senhor está preso, senhor Leandro Roberto, por tráfico de drogas.
A festa acabou na mesma hora. Fui para a delegacia, respondi processo e peguei seis meses de trabalho comunitário. Diziam que mesmo não sendo traficante havia facilitado o tráfico e o uso dos entorpecentes. A Rainha me largou e o Centro Acadêmico teve seu nome e regime substituído, agora era Republicano e chamava-se Centro Acadêmico de Ciências Sociais Marx & Weber. A vergonha era tanta que acabei por desistir do curso. Acabara meu Reino, acabara minha vida acadêmica.
Fui deposto pela Polícia Federal.
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Foto: lewis chaplin.
Oswaldo Cantini Braga do Alto

A vida sempre encontra os momentos em que você está desprotegido para te surpreender. Aconteceu comigo há mais ou menos três anos quando começou a história que contar-lhes-ei neste papel.
Compareci neste mundo com o peso de 4,35kg, saudavelmente robusto, e no mesmo dia do meu nascimento abri uma conta em um banco private no qual depositei a quantia de dinheiro equivalente a 4,35kg de ouro. Quem abriu a conta e depositou o dinheiro foi meu pai, mas gosto de colocar em perspectiva. Este fato é para ilustrar quanto o dinheiro se fez presente na minha vida desde que nasci. Cresci numa família de bilionários, políticos influentes e pessoas de destaque na alta sociedade. E então comprei aquela fazenda próxima de Colocado do Alto, no Mato Grosso.
Cento e trinta mil hectares de terra que levei meses para conhecer por completo. Voava com meu monomotor sobre a propriedade, que era dotada de uma pista pequena de aeroporto. Cavalgava com meus cavalos pelos trechos de campo aberto e pasto. Navegava com minha lancha pelo rio que beirava uma área limítrofe da fazenda. Tudo isso fazia valer aquela terra que havia adquirido, por um preço bem inferior ao praticado pelo mercado é verdade, mas ainda uma importante quantia.
Eis que durante um tempo que passei resolvendo negócios na Europa quase duas centenas de famílias de sem-terras e outros grupos sociais invadiram parte do meu terreno e assentaram-se sem permissão. Quando voltei ao Brasil a situação já estava incontrolável. A reintegração de posse, portanto, não foi requisitada por causa de um acordo particular com o prefeito de Colocado do Alto, este temia que as milhares de pessoas pudessem ir para um local ainda mais próximo da sua cidade. Recuei as cercas da fazenda e ainda ofereci água potável e trabalho para muitas pessoas do novo assentamento.
No ano de 2006 após um ano e meio de invasão, o assentamento antes constituído de pau e lona tornou-se uma pequena vila na qual eu explorava o comércio de produtos e a mão de obra dos moradores. Até que certa vez fiz uma visita como sempre fazia na venda da vila com minha HILUX cabine dupla 4×4, mas a visita não foi como normalmente acontecia. Meu automóvel quebrou e sem sinal do celular Vivo V3 precisei pedir para que um mensageiro a cavalo fosse até a cidade trazer um mecânico. Posei naquela noite na casa da dona Elvira, mulher humilde que contou-me como criou os nove filhos que amontoados dormiam no colchão fino no chão da residência.
O contato com os moradores aumentou e a minha preocupação com as crianças idem. Durante meses pensei numa forma de tornar a vida daquelas crianças um pouco menos sofrida, de certa forma mais doce: contratei professores e mandei erguer escola com biblioteca que hoje contem mais de trezentos títulos, solicitei a Vivo que providenciasse uma torre de celular possibilitada através dos meus subsídios e então doei celulares a todos na vila, mandei trazer ferro e uns caras da Metalúrgica Brasil lá da capital que construiram algumas traves de futebol além de providenciar a instalação de um corrimão para o banheiro para portadores de deficiencia da escola. Porém, tudo era nada em minha cabeça. As crianças mereciam algo a mais. E num dia olhando fotos no orkut de um sócio que fora comigo à Europa tive um estralo! Finalmente havia encontrado uma maneira de mostrar para as crianças que elas devem correr atrás dos seus sonhos.
Na Europa uma das empresas com a qual negócios financeiros foram realizados por via do Banco Colheita (meu banco) tinha um nourral especialíssimo. Por meio de um conjunto de tecnologias é possível produzir chuva, e ainda mais especial no nourral deles permite anexar pequenos objetos na produção das nuvens.
Fiz chover goma de mascar, balas sete belo e torrões de paçoquinha sobre a vila. Foi o dia mais feliz da minha vida. Guardarei para sempre em meu coração o sorriso completo daquelas crianças catando doces no chão como galinha que busca o milho com o bico. Uma das crianças passou por mim segurando a camisa pelo peito, na qual estavam depositados os doces coletados, formando uma bolsa de produtos açucarados. Ela gritava loucamente “tá choveno chicrete”.
A vila cresceu e ganhou o meu nome. O pedido de emancipação política ja foi encaminhado. Hoje posso dizer que sou alguém realmente realizado na vida. Devo dizer que gastei quase 4,35kg de ouro para fazer a chuva de doces mas tudo valeu a pena, porque quando meus netos olharem para trás, meus netos que provavelmente serão a elite política de Oswaldo Cantini Braga do Alto, irão ver que seu avô foi o cara mais legal do mundo.
Escola de Guerra de Areial

Pelos flancos iremos conseguir desabilitar a artilharia anti-aérea do inimigo, além de infiltrar combatentes de elite para detectarmos e destruirmos os oficiais deles. Aquele que estava ao lado do que pronunciou a frase concordou silenciosamente e providenciou os movimentos.
Pelo tijolo não vale, reclamou o inimigo. Vale sim, os dois que estavam deste lado retrucaram jogando pedras nas construções de lá. Num movimento de fúria um dos do lado de lá pegou doze (mais ou menos) soldadinhos verdes e jogou na face de um do lado de cá.
Soco no ombro, mão-de-martelo na cabeça, cuspe na cara, chute na canela e finalmente saiu uma mãe da porta ao longe portando uma longa varinha de marmelo calibre trinta e oito. Surrou os dois meninos que brigaram, juntou os soldadinhos e selou-os no vácuo dentro de um pacote plástico, e escondeu no forro da residência.
Ronaldo, o menino de lá se tornou um comandante do Exército brasileiro e serviu na guerra da amazônia. Ronival, o guri do lado de cá da briga é formado em matemática e dá aulas em uma escola estadual na cidade de Passo Comprido, no Rio Grande do Sul. A mãe envolvida na história morreu com doze facadas proferidas pelo seu esposo quando este a pegou na cama de sacanagem com outro homem.
Tempo perdido tempo de brinde

Bem na horinha que entrei no elevador tive uma iluminação: sou eu quem está fazendo um favor, ao escrever no novo-MUNDO, e não os leitores, em seu ato de ler, comentar e acompanhar o blog. A lógica do petrefiolismo completa a respeito deste insight é infinitamente mais humilde do que está parecendo. De qualquer modo, este pensamento foi uma repensada a respeito do blog, e acho, mais uma vez, que encontrei um caminho para tornar isso aqui um site melhor para o ecossistema interwebs.
Outro pensamento que me ocorreu num destes dias foi a respeito do tempo ocioso e chato, que existe quando se troca uma roupa. Olhando em médio-macro, o tempo não é ocioso porque você terá ao final de um ato, trocado de roupas. Mas se pensar no médio-micro da situação, enquanto você troca a roupa, o tempo se estende por infinito+1. E este tempo é ocioso. Mais um exemplo é o tempo em que passamos dentro do elevador. Você terá subido, ou descido, ao final daquele tempo. Mas no ínterim estará em um infinito de tempo ocioso em que a única utilidade, por mais que você escreva um sms, por mais que você arrume a roupa e o cabelo no espelho, por mais que você risque a parte metálica da porta com a chave, esse tempo do elevador que será infinito e ocioso terá sua única utilidade em ser, invariavelmente, inundado por pensamentos. Pensamentos geram pensamentos. Sinapses e neurônios trabalhando juntos para mais um sistema em looping no universo.
Meu professor de Ergonomia da Informação não se restringe a explicar o que é, quais os autores proeminentes e como fazer um trabalho de Ergonomia de Informação. Ele vai além e explica a origem das palavras que pertencem à disciplina, e então conta histórias, conta teorias, e diz que algumas pessoas têm visão atolada (bitolada) (tritolada?) comparando-as com “colocar em uma sala redonda e mandar cagar no canto” (também estou tentando entender a relação até hoje), etc. O importante é que no último texto ele falou sobre os neurônios e as sinapses. Eu já tinha ouvido algo sobre o assunto em algum Discovery Channel da vida, mas é sempre bom ser lembrado do quão impressionante é o cérebro.
E aquele primeiro pensamento que expliquei no texto, que me ocorreu no elevador, é resultado de toda a minha vida. E mais recente, da leitura de um texto escrito pelo Cardoso sobre o twitter. O twitter quase matou meu blog também.
Para fechar, digo que aquele pensamento aconteceu comigo no papel de leitor. Que eu gosto de ler blogs, e que gostaria de ver cada vez mais blogs espetaculares como o Nimias Cosas Mínimas, e tantos outros que pintam por aí. Porque estes blogs afetam os neurônios, e tornam o meu tempo ocioso chato, em ocioso produtivo interessante.
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foto: rucativava.
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