
Senhores e senhoras, a foto é só para despistar, preparai-vos para uma narrativa recheada de chuva, política, anestesias, ônibus, raiva e espírito socialista. Minha semana foi tenebrosa.
Esta é com certeza uma das piores semanas da minha vida. Começou na segunda-feira quando o examinador do Detran resolveu que eu seria a vítima da sua cota de reprovações. O carro estava completamente dentro da porcaria da linha amarela, alinhado ao meio-fio, e o senhor tomou pelo menos 20 segundos para inventar que o pneu da frente não estava na linha e eu teria que repetir. Fiz isso, mas segundo ele reprovei por 5 segundos.
Algumas horas depois eu já estava conformado e em um ônibus em direção a Curitiba. Nos mais de 100km fui obrigado a escutar a ladainha de duas senhoras sobre um pastor de igreja evangélica. Elas diziam quase emocionadas uma para a outra que no último culto o pastor via um anjo tocando gaita de boca. E elas pareciam realmente acreditar nisso.
Ainda no ônibus o ar condicionado estava totalmente mal regulado. O frio era intenso e eu estava sem blusa para me proteger. Ao chegar na rodoviária todo o meu pescoço parecia congelado, doendo muito. Estava chovendo em Curitiba na hora em que desembarquei. Cinco quadras sob um guarda-chuva. Guarda-chuvas não são efetivos.
Ok, ok. Meu pensamento era muito positivo. Em algum lugar do meu cérebro estava cravada a idéia “assistir alguns episódios de Heroes vai curar essa raiva”. O que aconteceu? A Net Vírtua me deixou na mão com aquela miserável taxa de download.
Como se não bastasse tudo isso surgiu um trabalho para entregar no outro dia na faculdade. Lá se foi minha última esperança: ir dormir cedo para acabar com a segunda-feira. Ainda estamos na segunda-feira.
Terça-feira começou com aquela coisa especial, uma dor de cabeça. Só percebi que era necessário um meio-litro de Anador quando já estava a caminho da faculdade. Durante e após a aula o dia foi péssimo. O Anador só fez efeito lá pelas quatro da tarde. Perdi o dia.
Acredito que grande parte dos leitores do novo-MUNDO sabem que vivo exclusivamente da atividade de blogar. Então, na minha semana maldita os ganhos resolveram que era hora de despencar. Eu ainda agüento.
A manhã de quarta me revelou uma surpresa. Ofuscamento da visão seguido de uma dor de cabeça nível 9. Aconteceu na primeira aula que era justamente diante de um computador. Olhei pela janela e consegui focar por meio segundo a estufa do Jardim Botânico. E juro que eu ví um boneco de voodoo correndo no teto do ponto turístico apontando uma agulha para mim.
Cheguei da aula e fui dormir. Novamente quase que o dia se vai. Acordei as 16h. Como eu não estava disposto a me entregar à esse voodoo fui ao cinema assistir o Motoqueiro que pega fogo. Nada de azarado me ocorreu no cinema e pensei que o efeito do voodoo tinha acabado.
Ledo engano Mr. Freeman. Hoje é quinta-feira. Durmi muito mal, acordei mal, e fui para a faculdade. Eu tinha destista marcado para as 17h30m e é esse fato que, torço eu, fecha com o voodoo.
Eram 16h quando o céu que estava azul de repente se tornou cinza e resolveu que era hora de chover. Não desisti, não aqui, no rabo da semana. Havia três opções: a) chamar um táxi; b) ir a pé com o guarda-chuva; e c) andar cinco quadras e pegar um ônibus para os 3km do trajeto.
Não fui besta: escolhi a opção do ônibus. Ir é sempre mais fácil e me custou R$1,80 mais um pouco de saco para descer no tubo - “tubo” são as estações de ônibus de Curitiba - do Shopping Estação e então embarcar em outro ônibus até a praça de fronte ao Shopping Curitiba.
Pronto, eu havia chegado um pouco molhado mas vivo ao dentista. Antes de iniciar o tratamento fui pagar a conta de R$205,00 com meu dinheiro de plástico. Foram três as tentativas, e em todas as máquina disse que a operação não poderia ser realizada nem a pau.
Disse à moça para esperar eu ir no Shopping Curitiba atrás de um caixa eletrônico. Peguei mais chuva mas consegui voltar com o dinheiro - transferido da poupança - para pagar minha tortura. Verificando minha conta neste momento encontrei um pagamento de R$214 à Bovespa pela compra de 5 ações da Petrobrás que eu pensei ter cancelado a tempo. Por isso que a máquina não aceitava debitar a grana.
Meu medo de deitar na poltrona da morte - cadeira do dentista - era crescente a cada milésimo de segundo. Porém eu não iria negar um serviço que me custou 200pila. A simpática Dra Tatiana tacou a broca no meu dente que teoricamente teria um canal feito. Mas que estranho: havia dor, muita dor. Um rápido raio-x (percebam que até radiação tomei nesta semana) revelou que a coisa de canal não estava feita. Vamos fazer então: mais R$250.
Xico Xavier bem dizia: nada está tão ruím que não possa piorar. Saí da clínica e me assustei com a fila para entrar no tubo. Debaixo de chuva lá fui eu. E até levei empurão de uma gorda ignorante, contudo consegui embarcar no primeiro ônibus.
Lembram da troca que fiz para ir? Precisa ser feita para voltar. O problema foi que na minha parada, o tubo do Estação, não existia mais o tubo porque por tudo que existe eu juro que aquilo era o inferno. Sem exagero algum eu posso afirmar que pelo menos 300 pessoas estava entulhadas em alguns metros quadrados, e em forma de tubo.
O empurra-empurra despertou em mim algo que eu desconhecia mas que tomou meu ser naquele momento: o espírito socialista. Num primeiro momento eu estava proferindo palavras de ordem. Pouco tempo depois já eram críticas ao sistema de coletivos. E para fechar soltei no meio da gritaria: tragam o Beto Richa pra vir pegar esta mierda de ônibus.
Depois de uns vinte minutos de empurra de todos os lados possíveis e impossíveis, pessoas gritando, estudantes fazendo baderna, mulheres chorando e passando mal, idosos perdidos, pessoas sendo presas nas portas, mais pessoas tentando acessar o tubo, mulheres parindo - tá, mulheres parindo foi exagero - é que consegui ser cuspido para dentro do ônibus que eu queria.
Saí do inferno direto para a porcaria da Terra. Desci alguns km à frente e cheguei ensopado em casa. Um demorado banho quente me fez pensar em escrever este texto.
Cá estou. Com raiva, com trabalho pra fazer, pensando o que vou fazer com cinco ações da Petrobrás que eu não queria comprar, com a cara toda anestesiada e com medo do que pode vir a acontecer amanhã. Pois sexta-feira é o último dia útil da semana. Desta semana que eu não desejo nem mesmo para pessoas com poderes especiais.