Era previsto

Comprei duas vassouras. Na verdade um dos objetos era um rodo, mas aceitá-lo-emos como vassoura neste caso. Pouco selecionadas, as vassouras pegas foram as primeiras da fila, primeiro a base vassoura em si, depois o cabo, que devidamente formam a vassoura completa. Levei as vassouras ao caixa do supermercado, cuidando para não derrubar algumas pilhas de latinhas de ervilhas estratégicamente posicionadas para chamar a atenção dos clientes potenciais de ervilhas – pessoas que tem dinheiro e gostam muito de ervilhas.
Alguns metros da saída do supermercado parei para aguardar o sinal ficar verde, para atravessar. O meu sinal de pedestre (aviso para aqueles achando que sou um suicida em potencial). Chegando próximo da calçada um carro em alta velocidade freia brucamente causando um susto extremo em meu organismo, o qual pensou se tratar da morte chegando. Desceram quatro indivíduos fortemente armados do veículo Gol branco placa AAK-4700. Carregavam fuzis automáticos, capus no rosto e vestiam um jeans bem vagabundo.
“Passa a vassoura, as duas. Não hesitarei em atirar”. Bradou um dos homem, o três. Em um veículo cabem cinco posicionados taticamente, o um é o motorista, o dois é o passageiro, e os três, quatro e cinco ficam no acento traseiro. Importante frisar que esta posição favorece o deslocamento em alta velocidade, pois quando o homem-cinco ou três bate na lateral do veículo, é um sinal para que o motorista prossiga sem olhar para os lados. Homem-três responde pelo lado esquerdo, e homem-cinco pelo lado direito da pista de rolamento.
Desesperado, joguei as vassouras ao chão. Sem mesmo tirar os olhos e a mira do seu fuzil da minha pálida face, o cidadão recolheu as vassouras, colocou-as dentro do automóvel e partiu cantando os pneus – lembrando agora, mais tarde, percebo que aqueles pneus estavam carecas e ofereciam riscos à segurança dos passageiros, dos outros motoristas e dos pedestres.
